Ouvir o que vem vindo (sem nunca terminar de chegar): escuta e ilegibilidade em Nuno Ramos

  • Rafaela Scardino
Palavras-chave: 1. Escuta, 2. Ilegibilidade, 3. Comunidade, 4. Performance

Resumo

Qual o regime de sentidos que se mobiliza quando escutamos um texto? Quais são as diferenças, as interpolações, os tempos que ressoam quando escutamos um texto sem poder lê-lo? Jean-Luc Nancy propõe que a escuta é sempre ressonância — é sempre relação, portanto. Em Monólogo para um cachorro morto, produção multimídia do artista plástico e escritor Nuno Ramos, um aparelho de som reproduz um texto falado para um cachorro morto. À escuta é suprimido o vivente: resta a máquina que reproduz um texto para um corpo já desprovido de qualquer reação. A nós, “espectadores”, resta o registro em vídeo da máquina que fala para o ser inerte. Também escutamos, talvez envoltos num voyeurismo não de todo repelido, esse texto que não nos é dirigido. Estamos à escuta desse texto, e em nós ele ressoa, ainda que de viés. A ressonância da escuta, escreve Nancy, “põe em jogo todo o regime dos sentidos”. E ainda: “talvez seja preciso que o sentido não se conforme com fazer sentido (ou ser logos), mas que também ressoe”. O corpo-fenda que nasce da ressonância entre homem e cachorro cria um espaço de indiscernibilidade entre os dois. O vivente passa a ser confrontado pela presença desse outro que ressoa nele à sua revelia, pois atravessa o limite da consciência para encontrá-lo lá onde não poderá erigir uma separação.
Como Citar
Scardino, R. (2018). Ouvir o que vem vindo (sem nunca terminar de chegar): escuta e ilegibilidade em Nuno Ramos. ELyra: Revista Da Rede Internacional Lyracompoetics, (10). Obtido de http://elyra.org/index.php/elyra/article/view/210
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Artigos