O ser em desassossego: da angústia à náusea em Álvaro de Campos e Bernardo Soares
DOI:
https://doi.org/10.21747/21828954/ely26a8Abstract
Este artigo propõe uma leitura analítica de alguns fragmentos e poemas da obra de Fernando Pessoa, a partir da análise de textos do semi-heterônimo Bernardo Soares e de poemas do heterônimo Álvaro de Campos. A pesquisa tem como objetivo analisar de que modo a angústia, o cansaço e a náusea se articulam nas escritas dessas duas personalidades literárias, revelando modos de representação da crise do sujeito moderno. A fundamentação teórica baseia-se, sobretudo, no conceito de angústia desenvolvido por Martin Heidegger (2024), para quem esse sentimento possui um caráter ontológico e produtivo, na medida em que o ser, consciente de sua finitude, torna-se capaz de criar artisticamente a partir do desamparo e da lucidez diante da morte. A angústia nas obras de Soares e Campos desdobra-se no cansaço existencial e, em sua forma limite, na náusea, compreendida como reação do sujeito poético diante do absurdo da existência. Essa tríade conceitual: angústia, cansaço e náusea constitui o eixo que sustenta a leitura comparativa entre as duas vozes pessoanas, ambas marcadas pela recusa da banalidade, pela introspecção e pela consciência fragmentária do eu. O estudo dialoga ainda com a obra A Náusea, de Jean-Paul Sartre, publicada em 1938, marco do existencialismo francês, na qual o protagonista Antoine Roquentin, assim como Bernardo Soares e Álvaro de Campos, enfrenta o vazio da existência e a perda de sentido do mundo. A crise da unidade do sujeito, presente nos fragmentos de Bernardo Soares, manifesta-se, de modo análogo aos poemas de Álvaro de Campos, por meio de um movimento vertiginoso entre a voz do autor e o mundo exterior. A observação do real converte-se em reflexão interior e em um processo de autonegação que configura a escrita como espaço de questionamento e revelação. A fundamentação crítica deste artigo apoia-se nos estudos pessoanos de Eduardo Lourenço (2017), Jerónimo Pizarro (2018) e Carlos Felipe Moisés (2005). Para a crítica dedicada a Soares e Campos, que propõe estudos comparativos com os trabalhos de Heidegger e Sartre, foram utilizadas as pesquisas de Gabriela Sofia Martins Pó (2015), Georg Rudolf Lind (1983) e Maria Esther Maciel (1983). Dessa forma, este estudo mostra que, em ambas as personas, a criação literária surge como transmutação da angústia, do cansaço e da náusea em expressão poética. Sob essa perspectiva, a obra dos dois se caracteriza como um projeto literário que é, ao mesmo tempo, um projeto filosófico existencial, não exatamente como a análise do comportamento subjetivo do indivíduo dentro do contexto histórico, e sim como uma expressão poética desse próprio mundo sob uma perspectiva existencial.
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